Caro amigo,
Ontem eu finalmente convidei aquela moça bonita para sair comigo. Todos aqueles sentimentos no meu peito inquietavam-me deveras. Necessitava fazê-lo: fi-lo. Ela me rejeitou! Continuo inquieto. E agora, talvez um tanto lacerado... como quem correu rapidamente, tropeçou na própria velocidade e caiu, ralando-se inteiro. Machucados profundos como um pires, de fato, mas que ardem como úlceras sentimentais.
Quando conversamos quarta, eu estava tão reticente de que o convite desse certo que nem previ a dor que seria ter falhado. Eu escrevo-te aos solavancos porque me custa estar parado. Sento, escrevo alguma frase. Depois levanto, vou ao banheiro secar as lágrimas que me escapam. Ensaio palavras para te escrever que esqueço quando torno a sentar-me. Dá vontade de rir também com o quanto eu fui bobo. Onde já se viu declarar-se, assim, sem mais nem menos?! Em defesa dela, eu quebrei todos os protocolos... não me atentei aos teus avisos, ignorei as dicas destes "sedutores de internet". Não gostaria de fingir desinteresse, não queria conversar consigo sem que ela soubesse o que eu sinto e, por isso, entreguei de cara as minhas intenções.
Sei que havia formas mais sutis de aproximar-me dela. É justa a rejeição porque eu mesmo me sentiria violado se, enquanto Lua, o Sol me pedisse em casamento (eu não a pedi em casamento!). Mas eu comigo mesmo pensei que, se eu a amava, melhor seria ser honesto: catar minha inabilidade com um punhado de palavras, e... o que tivesse de ser, seria. Infelizmente não foi.
Se bem que... isso não é de todo verdadeiro. Embora eu não lograsse o encontro pretendido, a experiência serviu aprendizados. Aprendi mais sobre mim, sobre mulheres. E aprendi sobre algo nela que, à parte classificar como qualidade ou defeito, posso com certeza afirmar que era verdadeiramente autêntico. E essa autenticidade, se boa ou se ruim, essencialmente, era o que eu buscava quando enviei-lhe o convite. Isso, paradoxalmente, me consola porquanto troquei o tesouro especulado das minhas idealizações por um ganho real.
Por fim, disseste que, para enxergar claramente a ilha, era preciso sair da ilha. Apesar de que seria muito confortável neste momento racionalizar a bagunça de sentimentos que está a ilha agora, confesso que estar aqui me deixa de certo modo satisfeito. Talvez eu seja algo masoquista? É possível. De qualquer forma, estando aqui, silencio as dúvidas existenciais posto que não não posso negar a realidade do que sinto. Algumas dores nos lembram de que a vida não é sonho. E o mundo continua sendo como sempre foi. Apesar de que estou um pouco mais feliz que antes.
Com estima, Victor.