Deveras Victor

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Acontecimentos de hoje

Victor Cosme |

No Ciretran, fiz o exame de legislação. Fiquei feliz por gabaritar a prova e agora posso começar as aulas práticas de direção veicular. Na biblioteca, compus os versos seguintes: Vivendo no ventre do vento A velha valente e voraz Voltava nas asas do tempo Aos tempos do bom capataz Mas por entre as folhas e flores Susssurrava compenitente Com suaves sibilos solenes O bramir de vis cantadores No... Leia mais

Quadras e terceto heptassílabos

Victor Cosme |

No prédio há uma janela
No teto, uma parabólica
Na garupa da magrela
Que noite mais estrambólica

Uma brisa corre solta
Despontando até Brasília
Um gosto doce na boca
De moça bela e esguia

Vai correndo sem receios
Dos sonhos tecendo os freios
Duma alegre sinfonia
E a noite virando dia

Uma moto buliçosa
Assusta o gato medroso
O ronco causa alvoroço
Numa tarde cor-de-rosa

O pobre gato...

Versos em Voa-Maritaca

Victor Cosme |

Refrão:

Voa maritaca, voa,
Maritaca vai e vem,
Traga notícia de quem
Foi embora e não voltou!

Estrofes:

Ó maritaca
Corra de calca colada
Que o mandacaru derrapa
Esperando o seu amor
Quisera a chuva
Molhasse os peixes silentes
Cantando com dor de dente
Mariri e marulhou

A minha amada
Brilha qual um pálio aberto
Furando e bolando o teto
Tudo isso sem pudor
Formosa...

Deus, o nada e o homem

Victor Cosme |

Eu li uma frase e me pus a pensar.
Tratava: "o homem sem Deus não é nada",
De modo que o homem é nada mais Deus.

Porém, Nada, a algo somado, ele some...
Seria, portanto, igualar Deus aos homens?
Esta premissa me custa aceitar...

Autobiografia di una borsetta

Victor Cosme |

Assisti a um curta-metragem. Confesso que o vi procurando o falso cognato. Fiquei, no entanto, surpreso ao ver uma bolsa ser metáfora de vida. O filme é um monólogo. A bolsa, com voz feminina e velha, conta sua história. Conta do nascimento e da infância. Do otimismo de achar que tudo será sempre uma alegria infinda. A felicidade de sentir-se útil. Conta de como a infância lhe é roubada e o medo... Leia mais

Gato

Victor Cosme |

A lua nova no céu...

Victor Cosme |

A lua nova no céu:
Uma menina come pipoca
Depois toma um gole d’água

Leve como uma pena

Victor Cosme |

O relógio marcava as sete da manhã quando vi repousando na morgue, com a porta aberta, um senhor que passara já dias internado no hospital. Soube que tivera um mal-estar súbito durante a madrugada, e que achou na cama cimentada e fria maior conforto que no leito da ala vermelha. Um homem que o visitava para dar banho dizia que ele era muito rabugento e bravo. A acompanhante de um outro interno,... Leia mais

Cena vista ao ir para a faculdade

Victor Cosme |

Eu ouvia o IIIº ato de Condor, de Antônio Carlos Gomes, quando vi ornando o céu azulado da manhã uma multidão de nuvens se erguendo das matas como se fosse a expiração das árvores. Voavam como se levassem a alhures os átomos como lembrança de que estas árvores, aqui e agora, também existem. Leia mais

Cenas vistas ao voltar pra casa

Victor Cosme |

Uma senhora, estirada, reza numa varanda iluminada por pisca-piscas. Um garoto entra na garagem empinando uma bicicleta. Uma adolescente, chegando à porta de casa, abraça o pai que a aguardava. Uma moça esbelta pendula a cabeça observando os carros que passam pela rodovia. Um homem gordo desce do caminhão todo sujo de graxa. Um idoso suado carrega pelo acostamento uma caixa amarrada ao bagageiro.... Leia mais

Coisas que me deixam animado

Victor Cosme |

Declamar um poema de ritmo agradável. Cozinhar boa comida mesmo sem seguir receita. Ouvir o allegretto da sétima sinfonia de Beethoven. Andar sem pressa numa bicicleta sentindo no rosto o vento suave e frio. Correr descalço na estrada de areia. Ouvir o ronronar de um gato. Sentir o cheiro de bolo saindo do forno no fim da tarde. Ouvir o riso de criança brincando. Escutar de um idoso as histórias... Leia mais

Jovem mãe

Victor Cosme |

Conheci recentemente uma jovem mãe. Tinha por volta dos dezessete anos e trazia consigo o filho com pouco menos de um. Tinha também um jeitinho de menina faceira, de inocência pueril maliciosa. Agia como mulher (quase) adulta que era, mas nos olhos algo havia como de garotinha perdida. Ela pretendia ir ao consultório médico para o bebê quando foi barrada na portaria do hospital. Sendo legalmente... Leia mais

Ciclista em S. José da Mata

Victor Cosme |

Eu voltava para casa no ônibus estudantil quando vi pela janela um senhorzinho negro, baixo e grisalho pedalando sua bicicleta às margens da pista, no acostamento. Em suas costas carregava presa por uma alça como se fosse uma mochila uma caixa de isopor branco com um logotipo cor-de-rosa. O homem com o rosto encharcado de suor trazia consigo um aspecto cansado de quem teve um dia intenso e está... Leia mais

Meu querido amigo

Victor Cosme |

Meu querido amigo, Há muito tempo não te escrevo. Decerto confio que não te ofendes com minha insistência em falar contigo apenas quando necessito de consolo e de ajuda. É que falar contigo decanta-me o líquido-pensamento e as ideias tornam-se mais claras e cristalinas. Hoje eu relembrava uma cena no Auto da Compadecida onde Nossa Senhora diz que “na Ave Maria os homens clamam para eu rogue por... Leia mais

Hoje minha cabeça doía tanto...

Victor Cosme |

Hoje minha cabeça doía tanto que tive uma crise de choro no banheiro. Eu pretendia estudar, e como não conseguia, pensei em, antes, ir arrumar a casa. Quando peguei a vassoura, fiquei desolado: fui forrar a cama. Minha cabeça zunia: tive que lavar os cabelos. O banheiro parecia imundo, e fui limpá-lo. Depois disso lembro apenas de chorar copiosamente sob a água do chuveiro. Eu questionei tudo, e... Leia mais

A Lua estivera cheia ontem...

Victor Cosme |

A Lua estivera cheia ontem e hoje já começou a minguar. Eu gostaria de atribuir à fase a minha falta de humor. Sei que há algo de estranho comigo porque as palavras me faltam: o texto é frio, não tem ritmo agradável e as palavrasWW não vêm do coração. Esta anedonia é velha conhecida, este cansaço é companheiro antigo. Sinto a urgência de perguntar o porquê: mas este papel, o que responderá? Não, o... Leia mais

Insatisfação

Victor Cosme |

Por mais que porfiar pudesse
Por minhas certezas na vida,
É certo que esta coisa sentida
Menos sentido no real tivesse.

Acróstico de aniversário

Victor Cosme |

Amarga e chata, se de ti predico,
Minto! Posto que em canto algum se acha
A doce graça que em ti bendigo…

Neste mundo tão nocivo,
Alguém como tu é jóia rara:
Razão por que tanto te estimo...
Amanara

Morte e mudança

Victor Cosme |

De dois mm se compõe a
Realidade, a meu ver:
Um mudar, outro morrer.

De toda forma se mantém
Uma coisa unicamente:
Interno ou externo,
Presente ou ausente.
Da mudança contínua
Surgem formas iguais.
Só a morte é que finda
E nos devolve ao cais.

O que sou

Victor Cosme |

“O que sou?” é um balde
Que agita a água contida.
Aquele que o pergunta
debalde se contrita.
O que será que decanta
A ilogicidade da vida?

Vênus

Victor Cosme |

E tu, ó Vênus,
Aquele a quem chamam "d'alva",
Não te sentes só, assim,
Pioneiro da noite estrelada?

Just you, single star,
Shining in the giant sky;
Si tu veux,
Je ne m'inquiète pas.