Deveras Victor

Meu querido amigo

Por Victor Cosme em

Meu querido amigo,

Há muito tempo não te escrevo. Decerto confio que não te ofendes com minha insistência em falar contigo apenas quando necessito de consolo e de ajuda. É que falar contigo decanta-me o líquido-pensamento e as ideias tornam-se mais claras e cristalinas.

Hoje eu relembrava uma cena no Auto da Compadecida onde Nossa Senhora diz que “na Ave Maria os homens clamam para eu rogue por eles na hora da morte: eu rogo e percebo que é na hora da morte que muitos encontram aquilo pelo qual passaram toda a vida buscando.”

Relembrava também as cenas em que se redimem os personagens da trama. Que vontade de chorar eu tive, e que lágrima escorreu-me dos olhos, efetivamente… na hora mais aguda, eu me perguntei seriamente se não são todas erradas as minhas pressuposições a respeito deste apêndice da vida que lhe chamamos fim.

A memória de A. também ousou saudar a mim trás a apreciação da obra. Novamente a pergunta, reverberante, soou-me como um címbalo na mente, dizendo: acaso terá ele obtido o descanso o qual tanto desejava? Parte dele haverá que permaneça naquela terra imunda em que foi enterrado? Ainda lembro com pesar profuso dos fios de água que brotavam dos olhos de L. Ainda lembro com tristeza o olhar perplexo de meu tio quando observava o corpo inerte de tia C.

Talvez nem fosse o que pensasse realmente, mas no olhar dele e nas lágrimas daquela situava o meu luto contido e o medo que tanto reprimo. Nunca pensei ter medo da morte. Malgrado nunca a ter visto tão perto, sei que ele estará sempre aí — nas periferias do inconsciente — a assombrar-me como um rato horrível e asqueroso.

Um não sei quê… um algo assim… que me põe tão afligido e triturado que nem sequer posso exprimir com palavras. Eu tenho tanto medo deste fim desconhecido que é o destino de todos os viventes. Mas não sei se este medo é da morte em si ou do esquecimento que ela causa. Nunca me esqueço deste dito: “os homens duplamente morrem: a primeira quando expiram; a segunda, quando deles se esquecem os que estão vivos.”

Enquanto eu viver, sei que A. e Tia C. vivem na minha memória ainda que tão distantes deles eu fosse. A morte deles também me foi o ensinamento da vida, e não serei jamais ingrato por isso. Nem ao boi cujo sebo me serve de sabão, nem à planta cujos frutos e folhas me servem de saboroso alimento; nem a um, nem a outro posso agir com vileza. Cada vida na Terra é preciosa.

Enquanto eu viver, quero escrever estas memórias…