O relógio marcava as sete da manhã quando vi repousando na morgue, com a porta aberta, um senhor que passara já dias internado no hospital. Soube que tivera um mal-estar súbito durante a madrugada, e que achou na cama cimentada e fria maior conforto que no leito da ala vermelha.
Um homem que o visitava para dar banho dizia que ele era muito rabugento e bravo. A acompanhante de um outro interno, por sua vez, com voz melosa respondia: "e com razão... botasse água nele e o pobrezinho tava que nem um chuveiro de tanto que o furavam."
Vou aos fundos abrir o portão de veículos. O carro da funerária chegou para preparar o corpo: RLV eram os caracteres na placa. E, todavia, nenhum sinal de alívio escapava às feições de quem andava por ali.
— Sei que não é do seu trabalho, mas você poderia me ajudar a colocar o corpo na urna? — perguntou-me gentilmente o motorista.
Assenti e, apoiando pelos ombros, o movemos. Era pesado e mole. Tinha os cabelos bagunçados e os olhos abertos em minha direção. O olhar me trespassava, porque não estava me olhando de fato.
— Muito obrigado — disse o motorista, que agora era tanatopraxista.
E calado e curioso, fiquei observando a preparação. — Limpa o corpo, posiciona-o. Veste meias, calça, blusa: as antigas vão por baixo. Algodão preenche a boca e o nariz. Embalsama, fecha os olhos. Plantas servem para acolchoar a madeira dura do caixão. Flores enfeitam a fealdade da morte.
Neste momento, o funerário leva a urna ao carro e o conduz como fosse um barco. A acompanhante o segue de moto. RLX eram os caracteres da placa. E, todavia, nenhum sinal de relaxamento restou no lugar.
Os vivos os mortos sucedem numa dança macabra. Ao senhor que embarcou nesta viagem sombria, por todos nós que ficamos na existência, peço que a Ma'at envie lembranças nossas.