A Lua estivera cheia ontem e hoje já começou a minguar. Eu gostaria de atribuir à fase a minha falta de humor. Sei que há algo de estranho comigo porque as palavras me faltam: o texto é frio, não tem ritmo agradável e as palavrasWW não vêm do coração. Esta anedonia é velha conhecida, este cansaço é companheiro antigo. Sinto a urgência de perguntar o porquê: mas este papel, o que responderá? Não, o problema não é a pergunta, o problema não é a causa. O problema é, apenas, e entendê-lo me basta.
Conquistei muitas coisas e de todas elas obtive o reconhecimento. Mas acontece que tanto mais me aproximo das estrelas quanto menos aquece-me o calor da Terra. Para que conste clara a metáfora: parece que me afasto cada vez mais de mim mesmo… mas que porra sou eu, que diabos é ser igual a si próprio se sou tantos desconhecidos. Como me aflige esse montão de intrincadas contradições. Com que urgência um desejo de liberdade me assoma! Que desejo de correr ininterruptamente para canto nenhum e sem nada nas mãos.
De mim para mim, sou o mais demente dos amantes porque sofro por ninguém. Quisera eu ter alguém por quem sofrer, mas nem isto me é legado. Dizem que amar e ser amado são necessidades propriamente humanas: dia após dia parece que a humanidade em mim se escorre, e eu só me encho de tarefas para evitar encarar a mais pura verdade.
Meu gato me lambe os dedos dos pés e isto me causa um asco tremendo. Às vezes eu o afasto de mim tão violentamente que não me reconheço no gesto. De onde vem essa agressividade em mim? E essa ávida sanha sexual que me assola? Todas partes de mim: um dia recalcadas, agora voltam cheias de furores e de ares belicosos à consciência.
It is just a thought. Por mais que se lapide a casa, ainda que a lapidação eternamente dure, a imagem do rato se me antolha clara e repulsivamente! Não é quando me deito nem quando me durmo, basta unicamente um olhar despretensioso para as estrelas, o ouvir do craquear dos grilos e, de repente, surge subitamente a imagem na minha imaginação por átimos de segundo. Como se corresse nos rodapés da casa, nos caibros. É ligeiro, é sutil como que dissesse: "eu posso não ser grande, poderias me matar; mas tu não o farás, porque não me vês. E tu podes tentar fingir que não sou nada, mas saberás bem no íntimo que, à noite, eu poderia estar roendo esta ração que comes diariamente; e também que, enquanto dormes, por puro sadismo, poderia roçar meu pêlo hirsuto e imundo em tua pele."
Sei que reajo demasiadamente por um simples rato. É uma covardia querer demolir a casa inteira por um simples rato. Mas não há um dia sequer em que não me pergunto se estaria bem A…, que desta vida saltou… sinto a faca no meu pulso: o corte me assusta, mas o gotejar do sangue me alivia: é como ouvir um metrônomo de 60 bpm sabendo que a cada batida, um segundo se lhe escapa da vida e o aproxima da morte. Mas cada minuto que passa é um milagre que não se repete. E querer manipular o relógio de Deus é de uma esperteza imperdoável. Não sei até quando poderei conter meu grito.